domingo, dezembro 16, 2007

O entocador de tumba

Tinha nariz de pinóquio e gostava de música. Onde andava estava com um fone ouvindo música em seu moderno e mínimo radinho-tocador. Era sujeito estranho. Não parava quieto. Sempre viajando de um lado para o outro, procurando coisas, sentimentos e tudo o mais que pudesse entocar para sua reserva, para o seu futuro, como fazemos com bons vinhos numa cava.

Mas ele não tinha uma cava. Os vinhos ele não guardava, bebeu todas as garrafas na mesma hora que esteve com elas frente-a-frente. Entornava mesmo. O resto de todas as coisas e sentimentos, no entanto, o entocador começou cedo a fechar em sua tumba, que na verdade nada mais era do que um cômodo sem portas nem janelas, totalmente hermético, lacrado com cimento e tijolo. Cada vez que ele conseguia coisas ou sentimentos, abria um buraco na parede e as entocava.

Estava fazendo reservas, justificava. Um homem tem que ter suas reservas, afinal de contas, não se pode estar sempre por um fio.

Só que o tempo passou e o homem com nariz de pinóquio foi ficando velho, surdo e cansado de viagens, cansado de procurar coisas e sentimentos. Já tinha muitas, não cabia mais nada na sua tumba. “É hora de parar” – Pensou – “e curtir as coisas e sentimentos que guardei”.

O entocador abriu novamente o buraco na parede e entrou na sua tumba para começar a usufruir, cansado, mas feliz. Havia conseguido muitas coisas. Era melhor lacrar novamente para que ninguém entrasse e tentasse lhe tirar aquilo tudo que havia, a tanto custo, guardado. Com cimento e tijolo, fechou-se dentro de sua tumba com suas coisas e sentimentos.

Primeiro foi buscar as coisas e percebeu que estavam destruídas pelo tempo ou comidas pelos insetos. Procurou os sentimentos, guardou tantos durante tanto tempo, deve ter sobrado algum... Mas nada. Dentro da sua tumba, os sentimentos sem vida para alimentá-los, estavam aniquilados, frios e mortos. Ele não sentia mais nada.

O homem que não sentia mais nada ainda pensou que tinha para si a música, mas de tão velho estava surdo e mal conseguia ouvir as belas notas agudas, e todas as músicas pareciam para ele tão graves, tão sombrias que começou a temê-las.

Viu-se no meio de tantas coisas inúteis, de tantos sentimentos perdidos, com seu nariz de pinóquio, entocado em sua tumba. Olhou para os lados procurando uma garrafa de vinho que pudesse dar-lhe alguma alegria, mas não havia guardado nenhuma para aquele momento nem para momento algum.

E estava só. Não havia, em todas as suas idas e vindas, conseguido guardar para si o que há de mais importante nesta vida: as pessoas à nossa volta, as pessoas que encontramos pelo caminho, as pessoas do mundo inteiro.

Neste Natal, pense nisso. Guarde pelo menos uma pessoa que seja, ao seu lado, e uma boa garrafa de vinho. O resto deixe na tumba.

4 comentários:

José Calvino disse...

É isso aí, Morgana!
Coisa boa é ter amigos, é isso que nós POETAS INDEPENDENTES, vem fazendo. Um bom Natal para todos nós.
Abs,
José Calvino
Recife

Edna Regina disse...

Profunda reflexão, que demonstra o relacionamento com os valores da vida. Os amigos, mesmo que sejam poucos, são o nosso maior bem. Esta riqueza, se cultivada, valoriza-se com o tempo.
Natal - renascimento, vida. Que possamos reviver a cada dia tudo o que este evento nos sugere.
Parabéns
Edna - RJ

Dalva disse...

muito lindo, Morgana, como todo texto seu. Sabedoria milenar em um texto absolutamente original. Parabens.
Dalva

Treat disse...

teu trabalho é muito bom, parabéns.
gostaria de convida-la a ver um trabalho meu no teatro.Você é minha convidada.Estou com três peças em cartaz. "Atletiba" "O mundo é gay" "As mentiras que os homens que tem namoradas,noivos e casados contam" Entre em contato para combinarmos.

abraço.