segunda-feira, abril 09, 2007

Uma noite no deserto

Voltando pra casa neste último feriado de Semana Santa, sentada à janela do “mil-e-um” rumo a Saquarema, vim acompanhando, no contra-fluxo engarrafado dos que retornavam para a cidade do Rio de Janeiro, além das inúmeras imprudências dos mais apressados, as queimadas ao longo da Rodovia Amaral Peixoto. À parte os problemas ambientais causados por elas, à noite, o fogo é sempre muito atrativo.

A última vez que estive diante de uma fogueira foi na África, no Deserto do Saara, na Tunísia, guiada por um beduíno que animou a noite com sua flauta de três notas entoadas em dó.

Estávamos num passeio de férias, meu marido e eu e, passando por Douz às vésperas de seu aniversário, vimos a placa numa agência de turismo: “Uma noite no deserto”. Uau! Era um presente bárbaro, uma experiência inusitada e muito especial. Anunciava que estaríamos acompanhados por beduínos (nômades do deserto) e que passaríamos a noite em tendas e comeríamos uma deliciosa refeição genuinamente beduína. Imaginei logo aqueles acampamentos de filmes, com montes de camelos, cavalos, muita gente, dançarinas, música árabe, véus, enfim... Sabe tudo aquilo que a gente romanceia e imagina? Romanceei e imaginei.

Contratamos o passeio e nos preparamos. Muitas roupas para o frio da noite, uma garrafa de vinho e outra meia de uísque. Um sorriso meio bobo de crianças travessas e lá fomos nós dois para a nossa aventura. Deixamos o hotelzinho três estrelas no meio do oásis e, a caminho da agência onde pegaríamos o transporte até a “porta” do deserto, meu marido me recomendou que usasse o véu na cabeça por segurança – mulher sem o véu, ainda que turista, não é muito respeitada eno meio de um monte de beduínos, sabe-se lá o que poderia acontecer. Achei uma maravilha, estava mesmo querendo experimentar os véus que eu havia comprado de lembrança. Qual mulher já não se enrolou num véu à frente do espelho? Escolhi um bem bonito, em tons de vermelho.

- Que venham os beduínos aos montes! - Pensei, mas não disse palavra.

Na “porta” do deserto, o beduíno nos esperava com dois dromedários, cada um com mais de dois metros de altura. Quase desisti quando cheguei perto dos bichinhos, mas olhei para meu marido todo animado, no dia do seu aniversário, já se trepando em cima do animal marrom e não tive outra opção a não ser a de buscar meu assento no branco posto de joelhos por nosso guia. Tentei subir uma vez, duas e nada da minha perna alcançar o outro lado da “cela”. Meu marido já em cima da dele me incentivava:

- Vamos, querida! É bem alto aqui em cima...

Eu lhe sorri aquele sorrisinho às vésperas do desespero. Respirei fundo e... Pimba! Lá estava eu em cima do dromedário que subia rapidamente sem nem dar tempo de me ajeitar da sua cacunda.

- Ai, meu Deus, vou cair! – Pensei, mas não disse palavra.

Lá em cima, abri um sorriso. Com as pernas arreganhadas e a corcova no meio delas pelos joelhos, eu era, digamos assim, a deselegância em pessoa, ainda que com meu bonito véu a essas alturas todo desajeitado na cabeça e preso por uma toca.

Resolvi tirar uma foto lá do alto. Com uma das mãos segurando meu corpo em cima do “Ugh” – era assim que o beduíno chamava os camelos - e a outra tentando manejar a máquina digital, tirei algumas fotos meio tortas a caminho do “grand désert”.

Uma hora depois, com as coxas e virilhas assadas e meio mareados pelo bamboleio dos animais, estávamos no local da prometida “Uma Noite no Deserto”. Mas nada de outros animais além de “Ugh” e “Ugh”; nada de outras pessoas além de meu marido, do beduíno e de mim mesma; nada de tendas além da barraquinha de dois lugares que o homem nos entregou para que montássemos; nada de nada, muito menos de dançarinas: éramos mesmo só nos três e os dromedários.

Chegamos no final da tarde e o pôr-do-sol só não foi mais bonito do que a aurora do dia seguinte. Mas a noite caía rápido e o frio aumentava. Colocamos mais casacos, luvas, tocas e sentamos em volta do fogo aceso pelo beduíno que, com as mesmas mãos que guiou os dromedários começava a preparar a “genuína refeição”. Numa tigela amassava farinha de trigo e água e uma panela posta em cima do fogo fervia uma sopa de três pedaços de carne de carneiro, uma batata e uma cenoura, temperados com alguma erva e harissa (condimento apimentado à base de páprica e tomates).

Abriu a massa em disco, afastou as chamas, as brasas e um bocado da areia e a repousou ali mesmo, recolocando em cima dela a areia e novamente as brasas. Ao som das três notas entoadas em dó e bebendo o vinho, aguardamos famintos aquele pão e aquela sopa. O fogo dançava ao som da música e eu o observava feliz. Quem precisava de dançarinas, afinal de contas? Olhava para meu marido e achava até demais a presença do beduíno.

- Da próxima vez viremos sozinhos nós dois. – Sentenciei.

O frio aumentava noite adentro e fomos para a barraca, meu marido e eu, ainda com um pouco do uísque que dividimos um com o outro – o beduíno não bebe – e até que estávamos suportando bem o frio de menos dez graus. Mas naquela noite, depois de passar o efeito do uísque e do vinho, eu, que nunca me levando para ir ao banheiro no meio da madrugada, procurei uma moitinha no meio do areal por nada menos que sete vezes. Um frio de rachar a alma. Lá pelas tantas, quase menos quinze graus e meu marido, que me pedia a todo instante para chegar mais perto dele, declarou:

- Querida, acho que não vou sobreviver!

Enquanto sofríamos dentro da barraca com seis cobertores e um aquecendo o outro, o beduíno enrolado numa mantinha fina, dormia plácido ao relento, parecendo não se importar com o frio, perfeitamente integrado ao ambiente daquela enorme praia sem mar.

Pela manhã, depois da bela alvorada e de outro pão assado nas areias do Deserto do Saara, subimos nos “Ughs” e seguimos de volta para o agradável hotelzinho onde, depois de tomar banho, nos acomodamos na confortável cama e dormimos aquecidos.

Mais alguns campos queimados na beira da Rodovia Amaral Peixoto; mais alguns imprudentes cortando a frente do “mil-e-um” e estava eu de volta à minha casa na “porta” do Oceano Atlântico. Uma tempestade que se aproximava vinda do mar me deixou sem luz por parte da noite e, ali no escuro, apenas com a luz fraquinha da brasa de uma haste de incenso no meio do jardim de inverno, me pareceu ouvir, ainda que longe, o som das três notas entoadas pela flauta em dó do beduíno.

Nota: "mil-e-um" = viação de ônibus que serve à Região dos Lagos - RJ - Brasil.

6 comentários:

Fátima Ferreira disse...

Amiga,
ótimo como sempre.
Juro que morri de frio, lendo a parte noturna, mas amei as fotos do sol, no deserto.
Belíssimas.
E, realmente, você está parecendo bem assustada no dromedário, apesar do véu vermelho, lindo, por sinal
bjs
Fátima

Humberto Milhomen disse...

Obrigado pelas mensagens, Morgana. O seu "Uma noite no deserto" me fez não
temer tanto a desertificação do nosso planeta. Parabéns. Beijos.

Lúcia disse...

Amei a história da sua bela viagem ao Deserto do Saara e a tradução da nossa realidade.

Patricia Moreira disse...

Achei linda a sua história. Que fotos lindas também, você está de parabéns!! bjs

teresa cristina disse...

linda!!!Excelente!!Que inveja!!!Me transportei ao Saara!!!
bjks...

Cynthia disse...

Interessante :)