Essa divertida crônica, no mês da mulher, é para convidar a todos (e todas, claro!), antecipadamente, para a estréia da minha peça musical “Celas”, sobre a violência psicológica contra a mulher, em 4 de maio de 2007, no Teatro Municipal de Araruama, estrelada pela atriz e cantora Milena Lizzi e dirigido por Ângela Dantas.
Às mulheres que dormiram com meu marido
Digam-me uma coisa, caríssimas, ele canta Dom Giovan
ni inteirinho deitado ao seu lado na cama, antes e/ou depois de fazer amor? E se canta, vocês se emocionam às lágrimas? Ele tem uma voz linda, não é mesmo? Sabe aquela parte da Espanha, em que o Leporello mostra à Donn’Elvira a caderneta de anotações com as namoradas do seu bem-amado? Pois é, “in Ispagna son già mille e tre”. Eu sempre me divirto nesta parte.
Certamente, ele lhes chamava pelos nomes e não de “querida” com medo de esquecer ou trocar algum, não é? Clôs, Marlenes, Junias, Carmens Silva, Sônias, Graças, Isolinas, Serafinas, Dulcinéias, Françoises... Imagine guardar tantos nomes... Só ele mesmo. Mas são todas, realmente, muito “queridas”. E de meu amor, ele lhes chamava?
Contem-me, ele lhes disse que pensa em vocês todos os dias e lhes convidou para irem à Europa ou a qualquer outro lugar? Sim, porque ele adora viajar em boa companhia e nem sempre eu posso ir com ele. Vocês sabem, alguém tem que trabalhar para sustentar a família, né mesmo? E na rede, entre estrelas e um copo de uísque, vocês percebiam seus olhos umedecidos denunciando uma “sodade” cantada por Cesária Évora? Ele é tão sensível...
Mas, naquele momento mágico, depois de uma extenuante noite de amor e muito sexo, em que ele chegava finalmente ao orgasmo depois de ter feito vocês irem às nuvens, naquele momento de seu mais profundo prazer, ele lhes olhava nos olhos e lhes declarava amor eterno? Ele é muito bom mesmo, né? Por isso compreendo perfeitamente o assédio de todas vocês, ligando desesperadas para a minha casa, pedindo até mesmo para eu dar recados a ele. Claro que eu dava, eu respeito essas coisas, sabe? Principalmente, quando, por meu intermédio, uma de vocês desistia da relação e insistia ao telefone:

- Diga a seu marido que está tudo terminado entre nós dois.
Devo dizer que minha vida com meu marido, graças (e sônias e mirians e etcéteras) a vocês tem sido extremamente divertida e movimentada. Muito obrigada por hilariantes momentos! Ah, e agradeço também pelos elogios a minha casa, realmente, muito bem decorada. Algumas, quando estiveram aqui, na minha ausência (grande pena, pois eu teria adorado compartilhar a minha cama com vocês também) deixaram recados com ele que, gentilmente, me repassou. Foram todas muito amáveis. Voltem sempre! Ah, quem esqueceu um travesseiro? Foi você, Sônia? Maciiiio!
Uma última dúvida: com o meu namorado Ricardo, vocês não dormiram não, né??? Ah, bom! Senão o pau ia quebrar!