sexta-feira, junho 06, 2008

Um namorado pra Martinha

Martinha Santinha já cansou de estar sozinha. Desde que se separou do crápula do Marcelinho Coisa-Ruim – que a deixou sem nenhum tostão, diga-se de passagem – que a Santinha não pisca o olho pra ninguém. Mas isso está prestes a mudar, porque a Soninha Toda-Pura, que tem muita experiência na área, andou lhe dando uns conselhinhos básicos e Martinha ficou toda animada.

Traçou um perfil bem bacana e meteu-se num site de namoro na internet. Não tardou pra Martinha arranjar o primeiro pretendente. Um sujeito da Lapônia (da Lapônia? E a Lapônia existe mesmo?) que queria casar com ela – mas só virtualmente. Falou até com o pai de Martinha (em laponês?), tudo bem certinho...

A Santinha esperou mais de um ano pela viagem à Lapônia. Chegou mesmo a desfazer o perfil tão bonitinho do site (ele exigiu) e falava com o “Lapom” pelo MSN, por e-mail, por telefone (em laponês?) etc. Esperou a aurora boreal, mas o sol da Lapônia não nasceu mais... Toda-Pura condoeu-se da amiga:

- Não desista, minha amiga, veja se consegue um namorado mais pertinho. A Lapônia é muito longe, tão longe que o Papai Noel só sai de lá uma vez por ano. Olha, faz de conta que você sou eu e namora esse aqui, tá vendo? Parece ser bem legal esse homem... Vai, faz de conta que você é a Mel-de-Cachos...

E lá foi a Martinha disfarçada de Mel-de-Cachos namorar a indicação de Toda-Pura. Ficou encantada com ele. Um gentleman, mas ao mesmo tempo, estranho.

- Ele entra no banheiro e fica lá falando sozinho...

- Não está falando sozinho não, Martinha, deve estar falando com outra mulher escondido no celular...

Naturalmente, Martinha reclamou com o namorado, que ficou furioso:

- Você está desconfiando de mim? Assim não vamos poder continuar, uma relação sem confiança não pode existir...

E blá-blá-blá, blá-blá-blá... Tanto, tanto, que a Santinha se sentiu culpada por desconfiar do homem e parou de ouvir as conversas dele atrás da porta do banheiro. Mas, depois de algumas ótimas noites de ótimo sexo, como pouco Martinha havia tido até então (o Coisa-Ruim era ruim até na cama!), ele sumiu. Sumiu, sem deixar vestígios. Não atendia o celular, nunca estava em casa, enfim... Tomou doril, e deixou a pobre da Martinha sozinha de novo, à mercê dos conselhos de Soninha Toda-Pura:

- Desta vez, Santinha, vamos arrasar no seu perfil. Nada de Mel-de-Cachos, Sol, Amora, sem essa... Que tal “Lili Atmosfera”? Pra abalar... Dessa vez você vai encontrar o homem ideal.

- Não sei não... Essa coisa de “homem ideal”... E se o “homem ideal” for mesmo gay?

- Não desista, Martinha, ou você vai passar o Dia dos Namorados sozinha...

- Isso nunca.

Decidida, Santinha marcou mais um encontro. Dessa vez, o homem era tudo de bom.

- Nem celular ele tem! – Contou Martinha para a amiga Toda-Pura. Tem passado dias e noites lá em casa. Disse que não consegue mais ficar longe de mim... Ai, ai, acho que ele está apaixonado. É consultor. Viu só que profissão bonita? Trabalha em casa mesmo, pela internet, dando consultoria. Só não entendi bem em que área, mas fiz de conta que entendi pra ele não me pensar que sou ignorante, né?

Desolada com a ingenuidade da Martinha, Soninha Toda-Pura resolveu ajudar a amiga e tomou umas consultorias com o especialista. Primeiramente, pela internet, depois marcou encontro com o consultor da Santinha e o desmascarou.

Pobrezinha da Martinha Santinha, dessa vez demorou a se recuperar. Mais um “coisa-ruim” na sua vida e ela ia se mandar pelo espaço sideral em busca de um marciano que lhe compreendesse e amasse verdadeiramente.

- Não quero mais saber desses homens de internet. Vou ao baile.

Comprou um vestido lindo, um sapatinho confortável e partiu pro baile, levando a Toda-Pura a tiracolo. Nada como uns bons conselhos.

Dessa vez, foi a Soninha que arrumou um par rapidinho. Um tremendo pé-de-valsa com quem dançou a noite inteira, enquanto Martinha Santinha continuava sozinha e se consolava em passar diante daquele espelho maravilhoso perto da entrada do salão, para ver mais uma vez e mais uma vez o quanto estava bela naquele novo traje de baile. Mas ninguém a tirava pra dançar...

Não contou conversa. Saiu pelo salão convidando todos os que estavam disponíveis, menos aquele lá do canto com a cara cheia de espinhas. Aquele não, né? É feio demais... Dançou, dançou, dançou, mas beijo na boca que é bom, nada. Enquanto isso, Toda-Pura rodopiava no salão com o mesmo sujeito a noite toda, feliz da vida!

Faltava menos de vinte e quatro horas para o Dia dos Namorados. Mesmo que conseguisse um agora nem daria tempo para comprar o presente.

- Vou desistir. Quer saber? Melhor ir pra casa, dormir na minha caminha macia e sonhar...

Pegou a bolsa e abandonou o ringue. Já estava quase vencendo os sei-lá-quantos degraus da escada na saída do baile, quando, do alto de seu novo e confortável sapatinho, levou aquele tombaço. Uns riram, né? Porque a cena é engraçada mesmo, ainda mais que seu vestidinho foi parar na cintura, mostrando a cinta que, diga-se de passagem, já não era assim tão nova. Mas alguém correu em seu socorro, ajeitou rapidamente seu vestido, pegou com delicadeza seu pé torcido e ajudou-a a levantar. Alguém de espinhas no rosto, feio que só “o cão comendo mariola”. Ela custou a acreditar. Um momento tão especial, tanta gente linda no baile para ajudá-la e aquele feioso se adiantou, tirando-lhe a chance de ser salva por um príncipe.

Mas, o feioso a amparou e, pouco antes depois da meia-noite chegaram ao pronto-socorro onde os médicos trocaram o bonito sapatinho por uma enorme bota branca. E o feioso ali ao lado dela o tempo todo. Os médicos se dirigiam a ele como se ele fosse um parente, o namorado ou o marido...

- Argh! Ai que agora pago meus pecados – Pensou a Santinha – Ele é tão feio...

Madrugada, dia 12. O homem levou Santinha Bota-Branca em casa, colocou-a no sofá da sala, despediu-se cordialmente, deixou um telefone para o caso dela precisar de algo e partiu.

- Mas ele é tão gentil... – E dormiu ali mesmo no sofá.

Tão logo o dia clareou, despertou com a campainha. Era o florista com dúzias de rosas vermelhas e um cartão: “Desejo que se recupere logo e quem sabe vamos tirar um ao outro para dançar no próximo baile”. Martinha olhou o nada e pensou:

- Até que ele não é assim tão feio...

7 comentários:

Claudia disse...

Muito boa essa crônica..
Bjs
Claudia

Z.A. Feitosa disse...

Cara Morgana,
Li com grande interesse o novo conto. É muito peculiar a forma como você combina situações aparentemente comuns, transformando, neste caso, a desesperança em humor.
O uso freqüente de diminutivos parece sob medida para expor a fragilidade da personagem e, ao mesmo tempo, a compaixão da narradora – um toque lispectoriano na saga dessa macabéia, que também se deixa guiar por uma experiente amiga.
Com talento ímpar você mantém o interesse do leitor até desfechar de maneira venturosa a história da desventurada personagem, cujo sobrenome muda ao sabor de sua má sorte.
Força e luz! Abraços

Z.A. Feitosa disse...

Cara Morgana,
Li com grande interesse o novo conto. É muito peculiar a forma como você combina situações aparentemente comuns, transformando, neste caso, a desesperança em humor.
O uso freqüente de diminutivos parece sob medida para expor a fragilidade da personagem e, ao mesmo tempo, a compaixão da narradora – um toque lispectoriano na saga dessa macabéia, que também se deixa guiar por uma experiente amiga.
Com talento ímpar você mantém o interesse do leitor até desfechar de maneira venturosa a história da desventurada personagem, cujo sobrenome muda ao sabor de sua má sorte.
Força e luz! Abraços

J.R. Lima disse...

Encontrar também é se deixar encontrar. Muito bom, isso.

Um abraço!

Breno disse...

Muito bom, delícia de ler. E ainda ficou a simpatia pelo sobrenome (também sou um dos raros Pessôa com circunflexo). Abraço!

MARIAESCREVINHADORA disse...

Quem não tem cão caça com gato mesmo. Adorei Morgana.
Deu pra rir um bocado.
Beijos,

Conceição

Nathi disse...

Como sempre se diz mas nunca se vive:
"O que importa é o interior!"