

Procurei um pedaço de pau, uma vassoura, qualquer coisa que eu pudesse usar como arma, mas o mais parecido com isso era o limpador de privadas. Como eu poderia matar a aranha com um limpador de privadas? Cheguei a pegá-lo para tacar na aranha, mas o espelho me denunciou sentada na privada com o limpador de vasos numa das mãos em posição de lançamento. Era ridículo demais até para alguém tão sozinho quanto eu naquela casa à beira-mar.
Ela continuava na soleira da porta olhando para mim, mas àquela altura do campeonato, a aranha já me destinava um olhar de desdém, quase de pena por alguém preso ao vaso sanitário por um cocô medroso. Abominei aquele olhar e tomei a decisão que salvaria o pouco da dignidade que me restava. Alcancei o tapete felpudo vermelho e o joguei em cima da aranha. Ela ficou imóvel ali embaixo.
- Será que está morta?
Como se aproveitasse o momento de trégua, o cérebro de mim ordenou veementemente a conclusão e, num só movimento peristáltico, o corpo expulsou de si os restos de mim.
- Ouff!
O barulho da descarga fê-la tremer, mas permaneceu imóvel e mais do que depressa saí do banheiro, corri até a cozinha, me armei com a vassoura de piaçaba e retornei ao campo de batalhas. O aracnídeo estava prestes a ganhar uma vassourada quando pensei:
- Ela é importante para o equilíbrio ecológico - todo nós somos. Não posso matá-la.
Como me livrar da aranha sem matá-la? E a minha vingança pelo constrangimento que passei na privada? E as contas para pagar? Ela não tem culpa das contas. Ou tem?
Tentou fugir. Aproveitando minha dúvida e devaneio, a aranha tentou sair por um cantinho do tapete, mas a impedi com a vassoura. E se ela fosse para o meu quarto? E se eu a encontrasse à noite entre meus lençóis brancos de cambraia bordada?
Mas não vou matá-la, de qualquer maneira! Pelo bem ou pelo mal, segurei meus instintos assassinos e fui empurrando a aranha embaixo do tapete até a porta da sala, onde pretendia expulsá-la para o jardim. Ao pé da porta desconfiei. O tapete não se mexia mais. Estaria ela novamente se fingindo de morta? Esperta essa aranhinha! Ou será que preparava um bote? Aranhas dão bote?
Só retirando o pano para saber, mas cadê a coragem? Ela era enorme! E lá estava eu, mais uma vez superando meus medos em busca da sobrevivência. Com a pontinha da vassoura levantei o tapete e verifiquei que a minha inimiga estava toda enroladinha em si própria e com uma das pernas quebradas...
- Oh, não! - Fiquei com pena - O que eu havia feito? Havia machucado o bicho que apenas tinha errado o caminho e, perdida, encontrava-se na porta do banheiro da minha casa. Perdeu a perna e o rumo de sua existência. E eu? O que eu faria agora?
Tentei continuar a minha missão de colocá-la para fora e deixar a natureza cuidar de seu destino, mas com o empurrão que lhe dei, acabei arrancando outras duas patinhas. Não tinha mais jeito: Com uma vassourada certeira, acabei com a vida da aranha.
- Ué? Mas não se mata cavalo?