domingo, janeiro 14, 2007

A Condessa de Copa

Morava em Copacabana e tinha sete anos. O prédio abrigava uma antiga condessa no quarto andar, no apartamento em frente ao nosso. Sua sala, que um dia consegui ver através de uma brechinha descuidada, mais parecia uma loja de bibelôs, tantas peças decorativas e tão lindas. Morava sozinha a condessa e já era bem, bem, bem idosa, dessas que deslocam as pernas na curta distância de um pé quase sem tirá-los do solo. No nosso apartamento, do mesmo tamanho, morava meus cinco irmãos, meus pais, a Baía, e, vez por outra, ainda parentes vindos do Nordeste, de onde nós também viemos.

Sorte que, acima de tudo isso, junto à cobertura, havia um playground, onde brincávamos de todas as brincadeiras possíveis. Alguém, certo dia, teve a idéia de colocar lá uma mesa enorme. Perguntei a serventia e me responderam ser para as festas que aconteciam lá eventualmente. Os meninos resolveram jogar ping-pong nela, mas para mim era alta demais. Errava todas as jogadas e ninguém me queria nem como adversária.

Brincava, então, de casinha, embaixo da mesa, que forrava com um pano, cujas quedas laterais formavam as paredes da minha “casa”. Evoluindo dessas brincadeiras de casinha, de faz-de-conta e de historinhas, mesmo tendo, até então, ido muito pouco a teatros, acabamos, minhas amiguinhas (parceiras nas brincadeiras) e eu, por utilizar a mesa também na parte de cima, como palco para as nossas brincadeiras.

Muito extrovertida que eu era, sugeri que criássemos uma pecinha adaptada de “Alice no País das Maravilhas” e convidássemos os moradores do edifício. Ao invés da Rainha de Copas, criei a Condessa de Copa e por aí fomos ensaiando nossa aventura e convidando a todos para a estréia.

No dia esperado, o playground estava cheio das crianças do nosso prédio e dos vizinhos que também chamamos. Além de escrever, dirigir, atuar e produzir o “espetáculo”, eu ainda tive o cuidado de comprar algumas guloseimas e revendê-las na platéia, numa bandeja tal qual a bandeja dos baleiros que conhecia. Lá estava eu, de boné virado pra trás, com um macacão e gritando:

- Olha a bala!!! Baleiro!!!

Tal qual havia visto e cobiçado, gulosa, nas ruas de Copacabana, em frente às escolas, aos cinemas e teatros. Era mais um personagem que criava.

Em cima da mesa o cenário pronto. Alguns minutos antes de começar o espetáculo, deixei de lado o meu baleiro e assumi a Condessa de Copa.

Foi certamente ali que tudo começou.

Esta é a apresentação do meu livro “Peças, primeiro ato” com cinco textos para teatro, que estarei lançando no próximo dia 26 de janeiro, às sete da noite, em Araruama, durante o VI Concurso de Dramaturgia e Leituras Dramáticas. Desde já, estão todos convidados.

3 comentários:

Alfredo Rebello disse...

Morgana, muito legal seus textos. Esse me lembrou minha infância em Niterói...
Bjs

Ruth Mezeck disse...

Legal, mas e a Condessa mencionada foi ou não foi à representação?
Lí até o final pra saber e ...
espero que tenha no livro. ;-)

Eloy Figueiredo disse...

Enfim, encontrei alguém que sabe contar suas memorias.

Delicia de blog!!!