sábado, dezembro 23, 2006

Amigo Oculto; Presente Secreto

ou "A coragem que nos falta"

Margareth, que trabalhava todos os dias e era sozinha, ainda não tinha se dado conta de que o Natal estava chegando. Alguns colegas de trabalho haviam falado em amigo oculto e ela acabou comprando um perfume para o seu. No dia combinado, véspera do Natal, pela manhã, seu amigo oculto (que permaneceu oculto) lhe deu um presente. Era uma pacotinho pequeno, que parecia ter sido embrulhado em casa. Margareth achou melhor deixar para abri-lo à noite. Certamente seria seu único presente...

Alheia às brincadeiras dos amigos, Margareth guardou na bolsa seu pequeno embrulho e foi para casa. No caminho passou no mercado e comprou presunto. Margareth adorava presunto. Comprou também uma garrafa de vinho. Na noite de Natal, ninguém nunca apareceu na sua casa, mas quem sabe naquele ano.... Dessa forma, seria bom ter algo para oferecer à visita. Acabou incluindo um bolo de nozes às compras.

Ao piscar das luzes natalinas, Margareth, que já tinha arrumado sua mesa, sentou-se e apanhou o embrulho. Frente ao seu pacotinho, pensou:

- Este é o meu presente de Natal. Seja lá o que for, alguém deu ele a mim. É o meu presente.

Margareth foi desembrulhando devagar, tirou o laço, o durex do cantinho, puxou a abinha, deu uma olhadela para dentro. Não identificou o objeto. Rasgou de todo o papel e viu cair sobre a mesa, tinindo como um sino, uma chave. Ainda preso na folha de embrulho, um pequeno papel com um endereço completava sua surpresa.

Naquela noite, o bolo e o vinho, por mais uma vez, permaneceram intactos sobre a mesa. Acompanhados do inusitado presente, ali ficaram por três dias.

Margareth não entendeu. Havia dado um perfume. Poderia ter ganhado um também. Ou uma meia, um batom, até mesmo um sanduíche de presunto a teria feito feliz. Mas deram-lhe uma chave... E um endereço. Ela nunca teria coragem de ir até lá.

Nos dias seguintes às festas daquele ano, e nos meses seguintes e durante os anos em que trabalhou naquela empresa, tentou em vão descobrir seu amigo oculto. Nunca mais participou da brincadeira e nunca teve coragem de dizer aos colegas o que havia ganhado naquela manhã. Daquele ano em diante, em todas as Noites de Natal, acompanhados de vinho e bolo, na mesa de Margareth estavam a chave e o endereço. Mas lá não ia. Faltava-lhe coragem.

Passaram dez anos, Margareth se aposentou. Continuava sozinha, passando seus natais com a chave e o endereço, o vinho e o bolo, todos intactos.

Um dia, véspera de Natal, Margareth, decidida, não arrumou sua mesa. Sentia-se velha demais para ter coragem e também para não ter. Naquela noite, não sentou-se para apreciar sua chave, pelo contrário, colocou-a na bolsa, junto com o endereço, o vinho e o bolo, e seguiu em busca daquele rumo.

Chegou a uma vila de casas. A do endereço era simples, com uma calçada na frente e pequena varanda. Estava abandonada. Margareth respirou e olhou por um minuto a chave em suas mãos. Pensou em voltar, chegou a virar-se, mas retornou e abriu a porta. Afinal, já estava ali.

Não havia ninguém na casa, apenas uma lâmpada fraca, a do abajur na sala, clareava o ambiente. Margareth aproximou-se dela. Em cima da mesinha, um bilhete.

"Margareth,

Durante todos estes anos eu esperei que você chegasse para o Natal. Passei todos eles só, assim como você. Fui seu amigo oculto e você, minha amada secreta. E a nós dois faltou coragem.

Hoje é tarde, meu amor! Se eu não estou aqui, é porque não estarei nunca mais."

Margareth apagou o abajur e voltou para casa.

Naquela noite comeu o bolo e tomou o vinho.

Desejo a todos, coragem para viver a vida, toda ela. Feliz Natal!

11 comentários:

Nilberg Alcântara disse...

Muito lindo parabénsss
tbm acredito q é assim q dev ser.. viver sem temer, arriscar, apostar, se n der certo uma vez..tent mais uma e por aí vai!!!

Milena disse...

Vc escreve mto bem!
Adoro seus textos... parabéns!

Ramon Mello disse...

Gosto da sua coragem com as palavras! Sei sempre abrirá a mente de muitos amigos e correrá ao encontro...
beijos

Parabéns pelo BLOG.

Feliz 2006

Ramon(es)

Eduardo Barrox disse...

bacana!
um abraço

Eduardo Barrox disse...

bacana!
abraço.
Eduardo

FC disse...

Seu amigo oculto, sou eu; isso é dito por escrito no visor, estas palavras minhas. O tempo pára, você me olha. As palavras olham para si, somos nós e falamos esta voz. A continuação não espera pelo Natal, tem por destino cada dia a inventar. Tomado este comentário, a data a celebrar, próxima: o Ano Novo! Boas Entradas.!. So_riso :)

Angela Oiticica disse...

Na vida nos todos temos algo de Margareth.

Terminamos depois de anos como vivemos comendo sozinhos o bolo e tomando o vinho.

O amor se transformou em medo e já não interessa conhecer mais um.

Ser anti social é uma realidade.

O conto é de primeira, deveria estar em jornais e revistas. Conscientiza.

Hare Krishna

Ademar disse...

Cara Morgana!
Em princípio gostaria de lhe agradecer pelo prazer da leitura que me proporcionou. Seu conto me fez outra vez refletir como nós perdemos, muitas vezes, a oportunidade de viver intensamente. A personagem (Margareth) devia ter aceitado o presente do "Bom Velhinho" e mergulhado de cabeça numa aventura amorosa que tudo parecia modificar sua vida amarga e vazia. Preferiu ficar na mesmice do seu dia-a-dia e perdeu a chance de viver um grande amor. Se nada disso acontecesse, e aquela chave fosse de uma fechadura da porta de alguma espécie de "cavalo-de-tróia", valia a pena a aventura, pois as ilusões da vida são os temperos de nossas existências. Lembrei-me também destes versos do saudoso poeta Francisco Otaviano que vêm bem a calhar:
"Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem - não foi homem,
Só passou pela vida - não viveu."
um abraço e fliz ano-novo, Ademar

charlie disse...

Fizeste-me chorar...
Todos nós perdemos ocasiões únicas que pensamos poderem repetir-se um dia, como se a vida fosse cheia de oportunidades, e não uma loteria onde o prémio só sai uma vez em um milhão. Agarra a vida sim.
Ela nunca se repete, e só temos esta.

Carlos

Minha Vida é um Livro Aberto disse...

Olá , eu posso usar esse texto em um site que estou desenvolvendo?

Moisés

Morgana Pessôa disse...

Moisés,

Fique à vontade!
Obrigada!
Depois me manda o link.
bjs
Morgana