terça-feira, março 27, 2007

O Bêbado e a Equilibrista

“Caía a tarde feito um viaduto...” e a equilibrista atravessava as duas torres gêmeas por um fio com o pau na mão, quando passou o bêbado, em seu minúsculo avião, por entre as pernas do World Trade Center, sem nada derrubar, a não ser a equilibrista, que caiu feito a tarde feito um viaduto bem no assento traseiro do teco-teco:

- Você me desequilibra. – Disse ao que bebia.

Pousaram numa ilha deserta e se amaram a noite toda sob a lua que, “tal qual a dona de uma bordel, pedia a cada estrela guia, um brilho...”. Até que o sol nasceu – porque ele nasce todos os dias – e, como não pegasse nem no tranco, o teco-teco, saíram a caminhar pelas praias, ela equilibrando-se nas pedras, ele tragando os ares de tanto amor:

- Você me inebria. – Disse à bambolê.

Era tanto mar, era tanta areia, era tanta brisa, era tanto olhar, que os dias foram passando e os dois mais se perdiam entre o mar e amar: “um bêbado com chapéu-coco...” e a equilibrista ... “na corda-bamba de sombrinha...”. Mas “...em cada passo dessa linha, pode se machucar...”.

- “Azar!” – Disse o bêbado.

E ali estavam os dois, “... num rabo de foguete...”. Mas no rabo do foguete ela amarrou sua linha de equilibrista e partiu por ali mesmo, um pé depois do outro seguindo o fio de sua meada, enquanto o bêbado tropeçava um pé depois do outro se enrolando na mesma linha.

- “Que sufoco!” – Disse a equilibrista.

“Mas o show de todo artista tem que continuar...”


N.A. – Música “O Bêbado e o Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, que trata de tema político, numa referência aos anos
60/70 e à anistia no Brasil.

domingo, março 11, 2007

Mulheres de meu marido

Essa divertida crônica, no mês da mulher, é para convidar a todos (e todas, claro!), antecipadamente, para a estréia da minha peça musical “Celas”, sobre a violência psicológica contra a mulher, em 4 de maio de 2007, no Teatro Municipal de Araruama, estrelada pela atriz e cantora Milena Lizzi e dirigido por Ângela Dantas.


Às mulheres que dormiram com meu marido


Digam-me uma coisa, caríssimas, ele canta Dom Giovanni inteirinho deitado ao seu lado na cama, antes e/ou depois de fazer amor? E se canta, vocês se emocionam às lágrimas? Ele tem uma voz linda, não é mesmo? Sabe aquela parte da Espanha, em que o Leporello mostra à Donn’Elvira a caderneta de anotações com as namoradas do seu bem-amado? Pois é, “in Ispagna son già mille e tre”. Eu sempre me divirto nesta parte.

Certamente, ele lhes chamava pelos nomes e não de “querida” com medo de esquecer ou trocar algum, não é? Clôs, Marlenes, Junias, Carmens Silva, Sônias, Graças, Isolinas, Serafinas, Dulcinéias, Françoises... Imagine guardar tantos nomes... Só ele mesmo. Mas são todas, realmente, muito “queridas”. E de meu amor, ele lhes chamava?

Contem-me, ele lhes disse que pensa em vocês todos os dias e lhes convidou para irem à Europa ou a qualquer outro lugar? Sim, porque ele adora viajar em boa companhia e nem sempre eu posso ir com ele. Vocês sabem, alguém tem que trabalhar para sustentar a família, né mesmo? E na rede, entre estrelas e um copo de uísque, vocês percebiam seus olhos umedecidos denunciando uma “sodade” cantada por Cesária Évora? Ele é tão sensível...

Mas, naquele momento mágico, depois de uma extenuante noite de amor e muito sexo, em que ele chegava finalmente ao orgasmo depois de ter feito vocês irem às nuvens, naquele momento de seu mais profundo prazer, ele lhes olhava nos olhos e lhes declarava amor eterno? Ele é muito bom mesmo, né? Por isso compreendo perfeitamente o assédio de todas vocês, ligando desesperadas para a minha casa, pedindo até mesmo para eu dar recados a ele. Claro que eu dava, eu respeito essas coisas, sabe? Principalmente, quando, por meu intermédio, uma de vocês desistia da relação e insistia ao telefone:


- Diga a seu marido que está tudo terminado entre nós dois.


Devo dizer que minha vida com meu marido, graças (e sônias e mirians e etcéteras) a vocês tem sido extremamente divertida e movimentada. Muito obrigada por hilariantes momentos! Ah, e agradeço também pelos elogios a minha casa, realmente, muito bem decorada. Algumas, quando estiveram aqui, na minha ausência (grande pena, pois eu teria adorado compartilhar a minha cama com vocês também) deixaram recados com ele que, gentilmente, me repassou. Foram todas muito amáveis. Voltem sempre! Ah, quem esqueceu um travesseiro? Foi você, Sônia? Maciiiio!

Uma última dúvida: com o meu namorado Ricardo, vocês não dormiram não, né??? Ah, bom! Senão o pau ia quebrar!

quinta-feira, março 08, 2007

A Alma feminina


A feminina alma incrivelmente
se parece com a harpa.
Dedos que a tocam devem ser capazes
de sentirem plenos os vazios
entre as muitas cordas.

A alma feminina é como a poesia.
Não se pode tê-la,
A não ser o que nela transcende,
perdendo para a convivência mortal do papel.

A alma feminina parece rio,
Quanto mais selvagem,
podemos encontrar sentimento, diamantes...

Cau (em memória)

Esta semana abro espaço para alguém que, em vida, percebeu e descreveu tão bem, a

alma fêmea,
gêmea por nós
em nós desatados
a sós.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Bloco de nós

- Tá ouvindo?
- O quê?
- É o bloco.
- Hã, sim, é. Pensei que você estava falando da cadeira rangendo.
- Eu falava do bloco mesmo.
- O bloco tá passando.
- E a cadeira, rangendo.
- Mas o que é que você está querendo com essa conversa toda?
- Ouff!!
- Você tá assoprando de novo.
- Ouff!!
- Por que é você assopra tanto?
- Essa cadeira, precisa colocar óleo, não pára de ranger.
- Não é a cadeira que te incomoda, é o bloco.
- O bloco tá passando lá fora.
- E é isso o que te incomoda, não a cadeira.
- Essa cadeira range o tempo todo, o tempo todo, o tempo todo.
- E você nunca reclamou dela.
- Ouff!!
- E tá assoprando de novo.
- Escuta, eles estão tocando “Bandeira branca...”
- Eu gostava de dançar no salão.
- “Bandeira branca, amor...!”
- Você preferia a rua.
- Você não.
- Onde você vai?
- Vou comprar cigarros.
- Você não fuma.
- Ouff!!
- Fica aí. Daqui a pouco passa.
- O bloco?
- Sua vontade de fumar.
- Ouff!!
- Se continuar assoprando vai acabar sem ar.
- O que você está cozendo?
- É a fantasia.
- Há anos que você está cozendo esta fantasia.
- Algum problema?
- O bloco...
- O que é que tem o bloco?
- Passou.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

O que somos nós?

Há vários anos, quatro moças que dividiam um conjugado no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, viram-se, em menos de meia hora, agarradas a uma mangueira de borracha, dessas que servem para molhar jardim, do lado de fora do décimo andar do edifício onde moravam. Foram caindo uma a uma, tudo transmitido ao vivo pela TV.

Tal qual em onze de setembro de 2001, nesse dia – do qual já são passados tantos anos - eu atravessava a sala da televisão rumo a outro cômodo, quando me percebi diminuindo o ritmo do caminhar, e não desgrudei mais os olhos da TV até que tudo se tornasse tão banal aos olhos da mídia que ninguém mais desse atenção ao fato. Um bandido, fugindo de uma tentativa de assalto ao edifício onde moravam as moças, havia ateado fogo no corredor do prédio, bem na frente da porta da casa delas. Os conjugados no Rio não têm porta de serviço, apenas uma entrada e elas não podiam sair por lá, devido ao fogo e a fumaça que já invadiam o pequeno apartamento de um só cômodo. A única saída foi a janela. A polícia e os bombeiros foram chamados e formou-se o fuzuê em frente ao prédio. Formaram uma arena e colocaram colchões, cama elástica, cobertores, mas era o décimo andar. Esperavam a escada magirus, mas não chegou a tempo. A Rua Senador Vergueiro é um corredor estreito, entre os populosos bairros de Botafogo e do Flamengo. Por lá passam muitos ônibus. A escada ficou presa no engarrafamento.

Num ato de desespero e esperança, alguém subiu ao terraço do edifício e jogou de lá a mangueira. Elas, que já estavam no parapeito da janela acuadas pelo fogo, viram naquela borracha a derradeira possibilidade e se agarraram a ela como se agarra a própria vida.

Foram caindo uma depois da outra, restando só a última. Sozinha na mangueira ela ainda resistiu uns quinze minutos, tentando quebrar a janela do nono andar com os pés descalços balançando a mangueira com o corpo em direção à vidraça, mas foi em vão. Todos gritavam e torciam para que ela conseguisse, mas, ao vivo para todo o Brasil, a moça perdeu as forças nos braços e foi escorregando pela mangueira atéa largar a pontinha e despencar como suas amigas. A comoção foi geral e o terror absoluto.

Detido, o bandido se limitou a dizer que não podia imaginar que havia pessoas no apartamento. Será que ele pensou que o edifício que ele assaltava era um prédio fantasma?

Nada havia me destruído mais do que ver aquelas moças caindo uma a uma e se espatifando na arena formada por curiosos e jornalistas, proporcionando um espetáculo de terror. Nada, até saber do menino aos pedaços pelo subúrbio carioca.
Se tivessem sobrevivido, as moças hoje teriam a idade da mãe do João Hélio.
Tenho vergonha de olhar nos olhos das crianças. Porque essa responsabilidade,ao contrário do que se pensa, é nossa.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Seis vezes

Já fiz seis vezes, não consigo parar. Todas as vezes digo a mim mesma: é a última vez, não faço mais, juro! Mas não consigo parar.

A primeira vez eu fiz imitando um outro. Sabe aquele sentimento de: - Como é que eu não pensei nisso antes? Aquela coisa da idéia de outro parecer ser sua idéia de tanto que se parece com você mesmo.

Pode parecer um pouco complicado, mas já fiz seis vezes e não consigo parar. Confesso que fui eu sozinha que resolveu copiar a idéia do outro. Essa culpa assumo e pago a conta. Mas logo na primeira vez, quando contei para uma amiga o que eu pretendia, ela resolveu fazer também e fizemos juntas. Hoje nem faço mais assim tão sozinha. Muita gente resolveu fazer também. Está se tornando uma febre. Cada vez que eu faço, mais e mais pessoas aparecem querendo fazer também. E então começo a pensar que mesmo se eu que eu queira parar agora, acho que não vou conseguir. A não ser que eu fuja.

Mas como é que se foge de uma coisa assim? Mesmo se eu desaparecer, o que eu fiz não vai desaparecer junto comigo porque já tem muita gente fazendo também. Isso que eu fiz não tem volta...

Que bom! Porque mesmo que eu pare de fazer isso, o Concurso Nacional de Dramaturgia e Leituras Dramáticas, em Araruama (Rio de Janeiro - Brasil), não vai parar, e a sétima edição será em setembro 2007, em parceria com a Prefeitura Municipal de Araruama, que anda fazendo isso comigo também há cinco anos, sem conseguir parar.

A todo mundo que como eu não consegue parar de fazer isso, obrigada! E a você que ainda não fez, vem fazer isso com a gente, mas cuidado, porque você pode acometer-se desta febre e não conseguir mais parar de fazer isso também.

Abaixo, os indicados e vencedores da VI Edição do Concurso, que aconteceu neste final de semana (25 a 28 de janeiro 2007), no Teatro Municipal de Araruama.

Participaram os textos:
• A casa mal assombrada, de Cris Almeida (São Vicente – RJ)
• A voz na montanha, de Perla Duarte (Araruama – RJ)
• E quem chora pelas carpideiras, de Keyvin Cunha (Araruama – RJ)
• Campo Grande Tiradentes, de Almir Gusmão (Niterói – RJ)
• Até que o teto desabe, de Carlos Renato (Itabirito – MG)
• Baila Comigo, de Juliano Marciano (São Caetano do Sul – SP)
• Dois por um bordeaux, de Ed Anderson Mascarenhas (São Paulo-SP)


Melhores segundo o Júri Popular:
Leitura de A Casa Mal Assombrada (VENCEDOR)
Direção de A Voz na Montanha
Leitura de E quem chora pelas carpideiras?


Melhores Atores:
Matheus de Sá, por A voz na montanha (VENCEDOR)
Arthur Schreinert, por Campo Grande Tiradentes
Eduardo Almeida, por Campo Grande Tiradentes.


Melhores Atrizes:
Perla Duarte, por A voz na montanha;
Jeanne Lacerda, por E quem chora pelas carpideiras? (VENCEDORA);
Valéria Pedrassoli, por Dois por um bordeaux.


Melhores direções:
Dany François, por E quem chora pelas carpideiras?
Carlos Renato, por Até que o teto desabe (VENCEDOR)
Ed Anderson Mascarenhas, por Dois por um bordeaux.


Melhores Leituras:
E quem chora pelas carpideiras? (VENCEDOR)
Até que o teto desabe;
Dois por um bordeaux.


Melhores Textos
E quem chora pelas carpideiras? (1° Lugar)
A voz na montanha (2° Lugar)
Até que o teto desabe (3° Lugar)


Outras fotos e a reportagem completa do Concurso está no site da Editora Cartaz Cartolina, em www.editoracartaz.com.br

segunda-feira, janeiro 22, 2007

O anel que tu me deste


Pulou do décimo andar. Sentia-se só. Não queria mais viver. Mesmo assim, viveu ainda algumas horas no hospital. Tempo suficiente para dizer que gostaria de dar um de seus caros anéis para a empregada. A que tinha lhe acompanhado nesses últimos anos de solidão desde que seu companheiro de vida inteira tinha partido pelo rumo do desconhecido, alguns anos antes. Tinham a mesma idade as duas. Falou para a filha:
- Dê a ela.
Era um anel de ouro, desses ouros bem ouros com aqueles quilates todos que um ouro bem ouro deve ter. E tinha três rubis cravados, verdadeiros. Da caixa em que estava guardado, de tampa bordada em prata e música, exalava um cheiro de sândalo e resplandecia o brilho dos outros anéis, todos de ouro bem ouro e pedras, dois com diamantes.
- O resto é seu. – Havia dito a mãe moribunda à sua filha única.
De frente para aquela caixa, ficou pensando na empregada. O que ela faria com o anel de sua mãe. Havia ganhado de seu pai, talvez de aniversário de casamento, talvez de Dia dos Namorados, talvez pelo nascimento da filha. Aquele anel representava um carinho de seu pai por sua mãe. Certo era que a caixa estava repleta desses carinhos.
- Quanto vale este anel? – Pensou e procurou saber. Valia muito, muito mais do que a empregada tinha ganhado cuidando de sua mãe por todos aqueles anos.
- Não vou dar. Ela vai vender o anel e gastar o dinheiro. Não vai dar o valor que ele realmente tem, o valor além do dinheiro. Não, não vou dar. Mas a mãe lhe havia pedido que desse. Um pedido último.
- O que eu faço? É melhor eu pensar um pouco. Não preciso resolver isso agora.
A empregada foi dispensada de seu trabalho, depois da morte da sua patroa e a filha dela, indecisa, continua pensando.

domingo, janeiro 14, 2007

A Condessa de Copa

Morava em Copacabana e tinha sete anos. O prédio abrigava uma antiga condessa no quarto andar, no apartamento em frente ao nosso. Sua sala, que um dia consegui ver através de uma brechinha descuidada, mais parecia uma loja de bibelôs, tantas peças decorativas e tão lindas. Morava sozinha a condessa e já era bem, bem, bem idosa, dessas que deslocam as pernas na curta distância de um pé quase sem tirá-los do solo. No nosso apartamento, do mesmo tamanho, morava meus cinco irmãos, meus pais, a Baía, e, vez por outra, ainda parentes vindos do Nordeste, de onde nós também viemos.

Sorte que, acima de tudo isso, junto à cobertura, havia um playground, onde brincávamos de todas as brincadeiras possíveis. Alguém, certo dia, teve a idéia de colocar lá uma mesa enorme. Perguntei a serventia e me responderam ser para as festas que aconteciam lá eventualmente. Os meninos resolveram jogar ping-pong nela, mas para mim era alta demais. Errava todas as jogadas e ninguém me queria nem como adversária.

Brincava, então, de casinha, embaixo da mesa, que forrava com um pano, cujas quedas laterais formavam as paredes da minha “casa”. Evoluindo dessas brincadeiras de casinha, de faz-de-conta e de historinhas, mesmo tendo, até então, ido muito pouco a teatros, acabamos, minhas amiguinhas (parceiras nas brincadeiras) e eu, por utilizar a mesa também na parte de cima, como palco para as nossas brincadeiras.

Muito extrovertida que eu era, sugeri que criássemos uma pecinha adaptada de “Alice no País das Maravilhas” e convidássemos os moradores do edifício. Ao invés da Rainha de Copas, criei a Condessa de Copa e por aí fomos ensaiando nossa aventura e convidando a todos para a estréia.

No dia esperado, o playground estava cheio das crianças do nosso prédio e dos vizinhos que também chamamos. Além de escrever, dirigir, atuar e produzir o “espetáculo”, eu ainda tive o cuidado de comprar algumas guloseimas e revendê-las na platéia, numa bandeja tal qual a bandeja dos baleiros que conhecia. Lá estava eu, de boné virado pra trás, com um macacão e gritando:

- Olha a bala!!! Baleiro!!!

Tal qual havia visto e cobiçado, gulosa, nas ruas de Copacabana, em frente às escolas, aos cinemas e teatros. Era mais um personagem que criava.

Em cima da mesa o cenário pronto. Alguns minutos antes de começar o espetáculo, deixei de lado o meu baleiro e assumi a Condessa de Copa.

Foi certamente ali que tudo começou.

Esta é a apresentação do meu livro “Peças, primeiro ato” com cinco textos para teatro, que estarei lançando no próximo dia 26 de janeiro, às sete da noite, em Araruama, durante o VI Concurso de Dramaturgia e Leituras Dramáticas. Desde já, estão todos convidados.

sábado, janeiro 06, 2007

Casamento de Alice

- Então a velha Alice me perguntou: o senhor topa?

Manuel Carvalho está prestes a completar noventa anos e é o viúvo da “Velha Alice”, aquela a quem eu pretendo biografar tão logo conclua a história da Dona Benvinda Maria, do Rancho Folclórico Português do Rio de Janeiro. Na verdade, a “Velha Alice” é Maria Alice Pessôa, jovem viúva do seu tio-marido, o coronel João Pessôa de Albuquerque (do Rio Grande do Norte e parente do da Paraíba, aliás, dizem que a família Pessôa é uma só, com acento circunflexo ou não). Viúva também de seu grande amor, o também coronel (Arra! Que é muito coronel naquela terra!!!) e também Manuel, só que Ferreira - Manuel Ferreira.

Alice era jovenzinha de 18 anos e noiva do pequeno proprietário de terras, Manuel Ferreira, igualmente jovem. Acontece que ela morava com velhos parentes muito pobres e, diante do desejo do sessentão Coronel João Pessôa de Albuquerque, de se casar com ela, seus parentes sucumbiram, afinal, o Coronel era o mantenedor de toda a família.

- Ela não vai se recusar, sabe que a gente precisa. E, além do mais, ela também deve favor ao Coronel, afinal, quem é que sustenta essa família?

Mas Alice estava apaixonada por Manuel Ferreira, daquelas paixões deliciosas da juventude, pela qual somos capazes de tudo. Naturalmente, ela se recusou. De personalidade rebelde toda a vida, Alice trancou-se no quarto e disse:

- Não caso não. Só caso se for com Manuel Ferreira.

“Ela casa sim!” Disse o parente.

- Espere só a fome bater! Ela sai correndo do quarto e casa com o Coronel.

- Alice! Deixe de arenga, menina!!!

Paciente, o Coronel esperou algumas semanas, durante as quais, tratou de dar uma ajudinha (sabe-se lá qual...) para o noivo Manuel Ferreira desistir do casamento e sumir da cidade.

Alice Pessôa e o seu Coronel de Albuquerque casaram sim e tiveram dez filhos, dos quais apenas três “se criaram”, e Manuel Ferreira partiu para o Amazonas, permanecendo lá por muitos anos, solteiro e fazendo sua fortuna. Voltou quando soube do assassinato do Coronel e da viuvez da sua amada, agora herdeira de grande patrimônio deixado pelo tio-marido.

Casaram os dois e foram felizes para sempre. Infelizmente, porém, o “para sempre” durou apenas cinco anos. Jurado de morte por brigas de terras, Nel Ferreira foi assassinado quando voltava da vila com os fogos de artifício para a festa de São João.

Uma tristeza para Alice, ainda jovem de seus trinta e poucos anos. Jurou que não casava mais. Entretanto, com mais um filho - este de Manuel Ferreira – e um grande patrimônio em terras para administrar, foi aconselhada por um parente a se casar novamente, pois não tardaria a ter suas fazendas saqueadas.

- Mas casar com quem?

Manuel Carvalho era um jovem comerciante, quinze anos mais novo que Alice – que já passava dos 35 -, muito bonito e promissor. Foi a indicação do parente que, agora, entretanto, não podia mais impor um marido a ela, mas apenas indicar.

Alice foi à bodega de Manuel Carvalho que ficava em frente à sua residência na pequena São Miguel (RN). Ela já havia percebido os flertes do rapaz, mas desviava o olhar sempre que ele insistia em ir à frente da loja quando a via na janela.

Quando chegou lá, Manuel era só sorrisos para com a viúva. Encostada num canto perto do balcão, uma caixa chamou a atenção de Alice. Estava cheia de louças e utensílios de cozinha. Manuel Carvalho havia desfeito recentemente o noivado com uma moça da cidade e alguns objetos ainda permaneciam na caixa.

- O que são estas coisas? – Perguntou Alice. – O senhor vai se casar?
- Vou sim. – Respondeu todo galante.
- E eu posso saber com quem o senhor pretende se casar?
- É com a senhora mesmo.

Manuel pensou que surpreenderia a jovem senhora com sua afirmação, mas tomou um susto quando ela lhe respondeu segura:

- Só se for hoje mesmo. Um casamento à americana, a meia-noite na sacristia da Igreja, só o senhor e eu e as testemunhas, o senhor topa?

Sabe aqueles três segundos na vida da gente que fazem a enorme diferença pelo resto das nossas vidas? Pois foram estes os três segundos de Manuel Carvalho, mas foram muito mais do que ele precisava para responder.

- Topo.

E se casaram, em 29 de setembro de 1938, naquela Igrejinha lá de cima, hoje reformada.

Ah, Manuel Carvalho conta, ainda, que passou vários dias recebendo a visita de Tiburcinho Sacristão, que ia lá na bodega a mando do padre, sempre para receber por uma taxa, por conta do casamento “à americana”.

- Era taxa de urgência, de pendência, de anuência... Haja paciência!!! Um dia, fui lá na Igreja e chamei o Padre. Olha aqui, disse eu pra ele, o senhor me diga aí quanto é que eu lhe devo que eu vou lhe pagar agora é tudo de uma vez. Vamos acabar com esse negócio de Tiburcinho estar todos os dias lá na bodega catando dinheiro, que com isso aí já se vai uma fortuna.

O padre se aquietou e deu-se por satisfeito com mais alguns réis. Este mesmo padre batizou seis dos dez filhos que Alice teve com Manuel Carvalho. Os outros quatro não sobreviveram.

Alice nasceu em 1903 e morreu aos 67 anos.

domingo, dezembro 31, 2006

A samambaia gira e a vida passa

Hoje pela manhã, ainda na mesa do café posta na varanda, olhando o mar deste lugar encantado onde moro, meu marido surpreendeu uma lágrima que saltava de mim:

- O que você tem, querida? Não está bem?

Sim, eu estou bem. A lágrima desceu por meu pai, que morreu este ano e no fato de que vamos entrar 2007 (e todos os outros) sem ele, mas em seguida, me confortei em lembrar que ele viveu plenamente sua vida inteira, ao contrário de milhares de outras pessoas que morreram e morrem todos os anos de causas muito menos “naturais” do que o câncer que devastou o corpo do meu pai – se é que se pode dizer que câncer seja uma “morte natural”, talvez fosse mais correto dizer que esta é uma “morte comum”. Mas, então, vou concluir que, atualmente, muitas outras são também “mortes comuns”, tais como as causadas por assassinatos, agressões, estupros ou genocídios.

O vento vindo do mar fazia girar a samambaia pendurada. No céu, um dirigível invadia o cenário e corrompia os sons naturais das ondas, dos pássaros, das folhas ao vento...

- Não gosto das mortes em massa. – Disse ao meu marido. – Nos fazem parecer frágeis demais. Uma onda mata duzentos e cinqüenta mil pessoas. Somos meio formigas esmagáveis. Eu não mato formigas, nem mato pererecas, nem mato gongolos (aquela lagartinha preta que come baratas. Argh!).

- Um homem mata milhões de outros! – lembrou meu marido, que é judeu.

A samambaia girava e meu pensamento também. Saddam Hussein foi enforcado e Lula lamentou, duvidou da justiça de seu julgamento. Vamos entrar 2007 com Lula no poder porque ele foi eleito democraticamente. Saddam foi enforcado em seu país cumprindo uma sentença que ele mesmo instituiu, ainda que de forma nem um pouco democrática.

Vamos entrar 2007 sem Saddam Hussein. Ufa! Ainda que alguns sugiram ter sido seu enforcamento uma questão pessoal dos Bushes, a morte do ditador iraquiano foi a merecida punição a um dos mais cruéis assassinos da humanidade.

Pode não ter sido o fim dos esmagadores de formigas, mas é, no mínimo, menos um. E a samambaia continua girando na varanda.


Feliz Ano Novo, sem Saddam!

sábado, dezembro 23, 2006

Amigo Oculto; Presente Secreto

ou "A coragem que nos falta"

Margareth, que trabalhava todos os dias e era sozinha, ainda não tinha se dado conta de que o Natal estava chegando. Alguns colegas de trabalho haviam falado em amigo oculto e ela acabou comprando um perfume para o seu. No dia combinado, véspera do Natal, pela manhã, seu amigo oculto (que permaneceu oculto) lhe deu um presente. Era uma pacotinho pequeno, que parecia ter sido embrulhado em casa. Margareth achou melhor deixar para abri-lo à noite. Certamente seria seu único presente...

Alheia às brincadeiras dos amigos, Margareth guardou na bolsa seu pequeno embrulho e foi para casa. No caminho passou no mercado e comprou presunto. Margareth adorava presunto. Comprou também uma garrafa de vinho. Na noite de Natal, ninguém nunca apareceu na sua casa, mas quem sabe naquele ano.... Dessa forma, seria bom ter algo para oferecer à visita. Acabou incluindo um bolo de nozes às compras.

Ao piscar das luzes natalinas, Margareth, que já tinha arrumado sua mesa, sentou-se e apanhou o embrulho. Frente ao seu pacotinho, pensou:

- Este é o meu presente de Natal. Seja lá o que for, alguém deu ele a mim. É o meu presente.

Margareth foi desembrulhando devagar, tirou o laço, o durex do cantinho, puxou a abinha, deu uma olhadela para dentro. Não identificou o objeto. Rasgou de todo o papel e viu cair sobre a mesa, tinindo como um sino, uma chave. Ainda preso na folha de embrulho, um pequeno papel com um endereço completava sua surpresa.

Naquela noite, o bolo e o vinho, por mais uma vez, permaneceram intactos sobre a mesa. Acompanhados do inusitado presente, ali ficaram por três dias.

Margareth não entendeu. Havia dado um perfume. Poderia ter ganhado um também. Ou uma meia, um batom, até mesmo um sanduíche de presunto a teria feito feliz. Mas deram-lhe uma chave... E um endereço. Ela nunca teria coragem de ir até lá.

Nos dias seguintes às festas daquele ano, e nos meses seguintes e durante os anos em que trabalhou naquela empresa, tentou em vão descobrir seu amigo oculto. Nunca mais participou da brincadeira e nunca teve coragem de dizer aos colegas o que havia ganhado naquela manhã. Daquele ano em diante, em todas as Noites de Natal, acompanhados de vinho e bolo, na mesa de Margareth estavam a chave e o endereço. Mas lá não ia. Faltava-lhe coragem.

Passaram dez anos, Margareth se aposentou. Continuava sozinha, passando seus natais com a chave e o endereço, o vinho e o bolo, todos intactos.

Um dia, véspera de Natal, Margareth, decidida, não arrumou sua mesa. Sentia-se velha demais para ter coragem e também para não ter. Naquela noite, não sentou-se para apreciar sua chave, pelo contrário, colocou-a na bolsa, junto com o endereço, o vinho e o bolo, e seguiu em busca daquele rumo.

Chegou a uma vila de casas. A do endereço era simples, com uma calçada na frente e pequena varanda. Estava abandonada. Margareth respirou e olhou por um minuto a chave em suas mãos. Pensou em voltar, chegou a virar-se, mas retornou e abriu a porta. Afinal, já estava ali.

Não havia ninguém na casa, apenas uma lâmpada fraca, a do abajur na sala, clareava o ambiente. Margareth aproximou-se dela. Em cima da mesinha, um bilhete.

"Margareth,

Durante todos estes anos eu esperei que você chegasse para o Natal. Passei todos eles só, assim como você. Fui seu amigo oculto e você, minha amada secreta. E a nós dois faltou coragem.

Hoje é tarde, meu amor! Se eu não estou aqui, é porque não estarei nunca mais."

Margareth apagou o abajur e voltou para casa.

Naquela noite comeu o bolo e tomou o vinho.

Desejo a todos, coragem para viver a vida, toda ela. Feliz Natal!

domingo, dezembro 10, 2006

Qual é a sua praia?

Sim, porque cada um tem a sua, não é? Estamos sempre ouvindo alguém afirmar: - Essa é a minha praia! Ou: - Essa não é a minha praia! Entretanto, há aquelas praias que são a praia de todo mundo. Ponta Negra é assim.

Tem gente de tudo quanto é lugar do mundo por aqui. Quando cheguei em Natal, há pouco mais de dois meses, enquanto procurava um local para permanecer esse tempo, com quem estive me dizia: - Ponta Negra não serve, porque só tem gringo e puta.

As putas não vi nenhuma por aqui, mas gringo tem de montão.

Apesar da colocação preconceituosa, acabei mesmo num flat em Ponta Negra. Tá certo que tudo por aqui custa três vezes mais caro do que em qualquer outro lugar do Rio Grande do Norte, afinal gringo paga em dólar e euro e o que custaria um real, imagine o leitor, passa a custar um dólar, um euro. Como um é sempre um e é barato em qualquer lugar, tanto faz cobrar um real como um euro. Só que para mim ou qualquer outro brasileirinho de outras terras por aqui, esse pequeno detalhe faz uma grande diferença.

Para fazer as unhas, por exemplo, aqui paguei doze reais pé e mão, em São Miguel – lá naquela terra de doidos – paguei somente cinco, no salão da Graça, que é uma gracinha de pessoa, do alto de seus metro e dez de altura, conseqüência dos inconseqüentes amores entre seus parentes antepassados, mas isso foi outra crônica... (leia Casa de Doido, abaixo).

Em Ponta Negra tudo é caro mesmo. Paga-se por tudo por aqui e todo mundo dá um jeitinho de ganhar dinheiro alugando ou ensinando qualquer coisa. Aqui, o cidadão do mundo paga para aprender o surf de água e o de areia, nas dunas – menos a do Careca que está interditada, porque estava ficando cada vez mais careca com o desce-desce das pranchas, papelões ou o que mais eles usavam para escorregar naquele tobogã natural.

Apesar de ser potiguar de nascença, sou carioca de jeito e com esse jeito de “essa é minha praia” que o carioca tem em qualquer praia do mundo, cheguei mandando. Vi a areia cheia de guarda-sóis e espreguiçadeiras, dessas de beira de piscina. Me animei toda:

- Oba! Quero aquela ali que é a maior.

Fui logo me aboletando na cadeira. Larguei a canga pra lá e me preparava para lagartear ao sol quando chegou o dono da bola e cantou a parada, no mais carioquês que um potiguar pode falar para ser bem entendido:

- É dérreal.

Olhei para o lado para me certificar de que era comigo que falava o sujeito com um cigarro no canto da boca e a pressa de um dono de bar com a casa cheia.

- Heim? – Perguntei incomodada procurando o que ele estava tentando me vender.

- É dérreal pra sentar.

- Como é que é? Dez reais pra sentar? Mas e se eu quiser tomar uma cerveja?

- É dérreal só pra sentar, o consumo é à parte.

- Ah, é? E quanto custa a latinha de cerveja?

- Trêrreal.

- E a água de coco?

- Dois e cinqüenta.

- Tá maluco!

Me levantei para ir embora ao mesmo tempo em que chegava um casal de franceses e o sujeito do cigarro lhes oferecia as cadeiras ao lado. A francesinha, que arriscava aqui e lá uma palavra numa língua enrolada parecida com o português, informava ao seu companheiro:

- Oh ! Ce n’est pas cher, il n’est pas cher. Non ser caro non.

Fiquei incrédula ouvindo a francesa achar barato os preços cobrados. Sentaram felizes e eu ali pensando: - Ou eu sou muito pobre ou esses turistas são muito otários! – Na verdade eu sou, e a Graça de São Miguel é, e todos os brasileiros – ou quase – somos, mesmo muito pobres. Mas que aqueles turistas são também muito otários isso são, e digo por quê. Eu peguei minha canga e estiquei na areia, num dos poucos espaços livres das barracas de aluguel, esperei menos de dois minutos e passou uma carrocinha vendendo cerveja: um e cinqüenta a latinha. “Bom” – pensei – “melhor perguntar se é real, dólar ou euro”. Mas era bem real mesmo.

Tomei minha cervejinha por um e cinqüenta enquanto os gringos gastaram treze, pelo menos.

Bem, como eu estava dizendo, cada um tem sua praia, mesmo que a praia seja a mesma. Ali, ao lado da minha latinha, confabulando com esse monte de gente que mora em mim, ouvi o forró que tocava no carrinho de som dos vendedores de Cds. O menino parou a alguns metros de mim numa barraca que o solicitava, no mesmo momento, um casal da barraca se levantou e largou uns passos de dança pela areia, num ritmo bem sacolejado e chamando a atenção não só de mim, mas de todo mundo ali por perto. Como uma câmera de cinema, fui abrindo minha visão lentamente em panorâmica, passando por duas velhinhas, bem velhinhas, que, ao lado de tantas outras pessoas que desfilam naquela pista internacional, caminhavam pela beira do mar, uma delas tentando se alongar com os dois bracinhos esticados para o alto e vergando para um lado e para o outro. Para cada lado que jogava os braços, eu pensava: - Vai quebrar! – E era grande alívio quando percebia que ela conseguia retornar à posição inicial, menor somente que minha agonia quando ela vergava para o outro lado: - Agora quebra!

Ampliando mais um pouco meu ângulo de visão, na beiradinha d’água, um instrutor bonito e bronzeado preparava dois branquelos desengonçados para subirem pela primeira vez numa prancha de surf. Abrindo de vez a panorâmica, muita gente passando pra lá e pra cá, de todas as cores, com todo tipo de biquínis e sungas de banho, vários com a bandeira do Brasil – que coisa mais brega! Só podem ser americanos.

E vendedores de tudo o que se possa imaginar, desde carrocinhas de milho-verde, espetinhos de camarão, água de coco, castanhas, salada de frutas, bebidas diversas, até butiques motorizadas com direito a modelos desfilando pela praia, passando, ainda, pelos inúmeros artistas e artesãos de todo jeito, vendendo tudo o que é arte. Sem contar aqueles que, não tendo o que vender ou ensinar, pedem esmolas com estilo próprio e cheios de histórias, como o senhor sem pé que me abordou:

- Bom dia, minha amiga! Que tal ajudar este velho veterano de guerra que perdeu o pé lutando pela nossa pátria?

E atrás dessa introdução, o homem, que não devia ter mais do que 65 anos (ou seja, quatro anos em 1945), fazia um extenso relato sobre as batalhas das quais participou. Interessada mais no personagem do que nas mentiras que alardeava, eu até teria lhe dado um pagamento por sua performance se eu não tivesse comigo apenas o suficiente para a cervejinha que já findava. Quando lhe disse que estava dura e que não poderia ajudá-lo, o velho se revoltou:

- Então, eu lhe salvo a vida e a pátria e é essa a recompensa que recebo?

Me pegou de surpresa, comecei a rir, e daí o sujeito se enfezou mais ainda. Começou a praguejar e amaldiçoou até a minha quarta geração, enquanto escrevia qualquer coisa num caderno que levava consigo. O velho saiu andando e resmungando, enquanto eu recolhia também a minha canga.

É hora de voltar pra casa. Essa praia não é minha.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Casa de Doido

- Por ali todo mundo tem um na família.

- Quase todo mundo; na minha não tem não.

Frase popular, que eu julguei fosse somente folclore, diz o seguinte: “Toda família tem seu doido”. Olho pr’um lado e pro outro e me pergunto:

- Tem um doido na minha família?

Num momento me convenço que não tem não, mas em seguida, penso:

- Quem será o nosso doido? Quem será que mora na nossa Casa de Doido?

Essa aí da foto estava lá em Coronel João Pessoa (RN), pertinho da fazenda “Quintos”, que hoje pertence aos herdeiros do próprio Coronel. E havia outras, várias por lá.

- Tem uma ruma! – Respondeu-me Alguém. – Ói, ali tem ôtra... Ói ôtra ali.

- Mas tem tanto doido por aqui?

- Tem uma ruma! Tem uma famí’ali que tem cinco. Um de cada mudelo.

Um desses “mudelos” era Onório de Chico Lulu, que foi mandado para a Casa de Doido porque atravessou nu a cidade com dois baldes pendurados num pedaço de pau carregado nos ombros. Foi assim até o açude e, na volta, com os baldes cheios d’água, foi mandado para a Casa de Doido.

- Tem deles que não saem nunca mais! – Informou Alguém.

Foi assim com o Marcelino Pedreiro, que não cansava de repetir para quem passasse:

- Avia, minino, deixe d’arrumação!

Seguia seu “cristo” por onde ele fosse repetindo daquele jeito bem rapidinho:

- Avia, minino, deixe d’arrumação! Avia, minino, deixe d’arrumação! Avia, minino, deixe d’arrumação! Avia, minino, deixe d’arrumação!

Acho que ele queria era endoidar a cidade inteira. Mas a cidade inteira se reuniu e decidiu o destino de Marcelino. Esse saiu da Casa de Doido pra "Casa de Morto" – que dava quase no mesmo.

Voltando de Quintos, passamos em frente da casa de Neto de Carmo, morador da fazenda. A casa dele é de tijolinhos aparentes, mas muito simples e rústica, daquelas que ainda usam a “casinha” para as necessidades. Essa “casinha”, um dia, ficou cheinha de jararacas que fizeram um ninho lá na fossa e provocou um vexame danado em muita gente, cada vez que uma tentava beliscar a bunda do cidadão. Vários sairam correndo nus da “casinha” de Neto de Carmo, correndo das jararacas. Esses foram perdoados e não foram pra Casa de Doido não.

Neto de Carmo, que era casado com sua sobrinha legítima, tinha duas filhas e as duas endoidaram. Como era muito apegado às “meninas” e elas brigavam muito, ele construiu duas Casas de Doido uma de cada lado da casa, geminadas a ela. Cada uma com apenas uma porta e um buraquinho para entregar as refeições às filhas.

Leilane e Lidiane eram doidas socializadas e não ficavam muito tempo lá dentro não. Quando uma delas sentia que estava pirando, ia pra sua Casa de Doido com suas próprias pernas e ali permanecia até que se julgasse social novamente.

Quando passamos, de dentro do nosso quatro-por-quatro climatizado, ouvimos Lidiane gritar pelo buraco da comida:

- Ei, venh’aqui! Ei, venh’aqui!

Ao ver dentro daquele pequeno retângulo, o reflexo das lentes dos óculos e o brilho do sol nos cabelos brancos da senhora, pedi que parassem o carro, mas Alguém alertou:

- Pare não que ela xinga!

- Xinga?

- Xinga. Você chega ali no buraco e ela só faz xingar, só faz xingar.

Deixamos Lidiane no seu inferno e seguimos. O sol rachando lá fora e eu intrigada. Um lugar tão bonito, com uma luminosidade incrível, um lugar que conserva as mais antigas tradições nordestinas, uma região de serra onde mesmo nesta época de estiagem, consegue manter o encantamento de seus vales e a água de seus açudes, um lugar desses onde as pessoas deveriam estar sempre de bem com a vida, entretanto, apresenta esse índice tão elevado de maluquices, dentro e fora das Casas de Doido.

Alguém explicou que não era uma questão social ou ambiental, mas sim de ordem genética, causada pelo grande número de casamentos entre parentes. São primos que se casam entre si, e seus filhos que se casam com os primos, que se casam com tios, que casam novamente com primos e por aí afora. Isso há alguns séculos. Essas deformações genéticas, entretanto, não se deram apenas neurologicamente não, há, ainda, famílias inteiras com deformações físicas causadas pelo mesmo motivo. Alguns geneticistas, entretanto, discordam desta tese.

No fim do dia, repousamos assistindo ao pôr-do-sol no Açude do Jacó, em São Miguel, do oeste. Esse aí que divido com vocês.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Cuidado com a burra!

Natal, 29 de novembro de 2006

Barra de Cunhaú é, na minha opinião, uma das mais bonitas. Mais que Pipa, mais que Barra de Tabatinga, mais que Búzios, Pirangi do sul e do norte, Cotovelo ou Pium. Mais que a Praia de Ponta Negra. Pra mim é a mais bonita e pronto.

Pronto!

“Pronto!” é uma expressão mais que mais que utilizada por aqui. Iniciando quase todas as indagações, respostas etc, o natalense diz: “- Pronto!” Da mesma forma que o carioca diz: “Então!”.

Pronto! Eu estava indo pra lá, pra Barra do Cunhaú. Pela BR-101 depois passando por uma vila de casas sem varandas, de portas rentes à calçada e de calçadas descalças rentes à estrada. Além da vila, mais uma estrada, desta vez uma “dinha”, com muitas curvas, chácaras, casuarinas, e criadouros de camarões. Numa dessas curvas, da janela do quatro-por-quatro, numa chácara quase em frente a um tanque de camarões bem criados, estava a placa:

- Cuidado com a burra!

Passei por ela e apenas alguns metros à frente é que a ficha caiu:

- Que burra?

Pelo resto da viagem até a barra-mais-bonita-que-há-por-lá não reparei em mais nada que houvesse na estradinha, só indagando a mim mesma se eu havia visto direitinho, se era aquilo mesmo, se não estava escrito “o cão” ao invés de “a burra” e outros devaneios.

- Vocês viram a placa? – Perguntei aos outros no carro.

Ninguém reparou. Seguimos e eu pensando. Se estava mesmo escrito “a burra”, então, só podia ser gozação de alguém, certamente um carioca perdido naqueles cajueiros muitos. Mas quem seria a burra? Pensei cá com meus botões. Certamente a sogra do chacareiro ou mesmo a filha dela.

Chegamos na Barra. Como eu disse, é realmente lindo o encontro desse rio com esse mar. Afastando-se da margem do rio Cunhaú de jangada a gente vê o paredão de coqueiros tão grandes que parecem palmeiras imperiais, tão fartos como seios de mãe, tão bonitos como o resto da Barra.

Só me lembrei novamente da burra quando estávamos saboreando deliciosos camarões e me disseram que eles eram dos tanques de criação que havíamos visto pela estrada.

O dia chegou ao fim e iniciamos os noventa quilômetros que nos levariam de volta à Natal. Combinei com todo mundo que pararíamos para comprar camarões frescos dos tanques.

Paramos no local, tratamos com o vendedor-tratador dos camarões e, enquanto este foi lá dentro buscar as amostras para nos certificarmos da cor, tamanho etc, um dos meus acompanhantes me cutucou e apontou:

- Olha lá a placa que você falou.

O outro acompanhante completou:

- E olha lá a burra.

Havia mesmo uma burra! Uma burra de guarda! E pela cara da bichinha era um bocado braba, valendo a placa de alerta. Nesse mesmo momento, retornava o vendedor com alguns camarões na mão. Os animais se mexiam, vivos que estavam, arrancando de mim o espanto e a exclamação:

- Mas, estão vivos?! O que vamos dar para eles comerem.

Imediatamente, o terceiro participante do nosso passeio, natalense nascido e criado por aqui, me saiu com essa:

- Pronto! Cuidado com a burra!

Pelo jeito, vou colocar a placa lá em casa.

P.S. - Aproveito para comunicar aos meus queridos amigos e leitores que estarei adentrando seis horas no interior deste sertão-de-meu-deus até São Miguel da Serra, pertinho de Pau-dos Ferros, do ladinho de Coronel João Pessoa. Volto dentro de alguns poucos dias com outras histórias.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Natal dos Escritores e da Cultura

Natal-RN, 27 de novembro de 2006

Por força de acompanhar meu marido em sua brava investida para ingressar na Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e tornar-me, enfim, a mulher do maior regente do planeta, estou aqui em Natal-RN, desde 23 de setembro, e já estava pra lá de cansada de criar modas culturais para este ou para aquele, e de tanta praia - por mais que belas sejam. Enfim, quando tudo parecia somente este mar e esse céu, aconteceu por aqui - e olha que eu já desconfiava que pudesse acontecer - um Encontro de Escritores.

Num espaço alternativo, criado para abrigar pelo menos mil pessoas, quase mil lá estiveram por dia, além, é claro, de nomes importantes como Ruy Castro e Heloisa Seixas, Marcelino Freire (ganhador do Jabuti 2006 por seu "Contos Negreiros"), Antonio Prata, Nelson Motta, Antonio Cícero, alguns escritores da terra e, ainda, Jorge Mautner que debateu com Affonso Romano de Sant'ana sobre o tema: Periferia e Centro.

Sant'anna disse que o centro tende a abraçar a periferia, por modismo, e Jorge Mautner lembrou que somos tudo farinha do mesmo saco, mas que há esperança para o mundo. Um gênio!

Ambos me parecem corretos, na medida em que o centro tende a alargar seu diâmetro abraçando a periferia e anexando-a a si, já que esta é sub-produto do próprio centro. O que acontece, então, é que uma nova periferia surge de tempos em tempo, mais precisamente, cada vez que os "excluídos da hora" passam a fazer parte do "cast" central. A pergunta que surge é: quem será hoje esta periferia cultural que surge e será que a estaremos abraçando daqui uns tempos?

O Marcelino Freire, que trabalha como revisor numa agência de propaganda, disse que não responde por disciplina quando o assunto é escrever, pois que se baseia mais na inspiração do que na expiração, no que foi rebatido por Antonio Prata para quem a Literatura garante integralmente seus proventos.

A experiência me diz, entretanto, que escrever só por inspiração é uma delícia, mas delícia maior é poder viver exclusivamente da Literatura, mesmo que para isso, vejam só, seja preciso escrever laudas e laudas diariamente, ou, como disse o Prata - que colaborou na novela "Bang-Bang", da Rede Globo -, três longas-metragens por semana.

De tudo, o que mais valeu nessa história toda, foi ter redescoberto este "Estado de Coisas" que é o Rio Grande do Norte, onde nasci, pois, puxando o novelo pelo fio do Encontro dos Escritores, venho descobrindo um mar de cultura num céu de novas revelações.

Sobre o Encontro dos Escritores, destaco, ainda, a participação do poeta Antonio Cicero e a divertida de Nelson Motta, que contou uma história hilária, com a qual finalizo este post, ilustrando-o:

Diz o compositor-letrista e produtor cultural que, na época em que estava lançando "As frenéticas" - início dos anos 80 -, a censura ainda era muito severa, resquício da Ditadura Militar. Então, ele mandou para a Rita Lee a letra daquela música com a qual as meninas de Dancing Days estouraram, que começava com "Eu sei que eu sou bonita e gostosa..." e terminava com "Eu vou fazer você ficar louco, muito louco...". Alguns dias depois, Rita Lee lhe manda pelo correio uma fita cassete com a música e um bilhetinho:

- Nelsinho, acrescentei uma pequena coisinha na sua letra.

Nelson Motta adorou quando ouviu o acréscimo no final da música: "Eu vou fazer você ficar louco, muito louco... Dentro de mim".

Era realmente genial "o dedo" da Rita na letra, mas como é que ele ia passar essa letra pela censura? Nunca conseguiria. Então, num lance de genialidade, à altura da contribuição de Rita Lee, ele tirou o trecho do fim da música e o colocou no início da letra, ficando da seguinte maneira:

"Dentro de mim, eu sei que eu sou bonita e gostosa...", terminando simplesmente com "Eu vou fazer você ficar louco, muito louco."

Ora, nada impedia o recomeço da música, deixando-a como sugeriu Rita Lee, gravaram As frenéticas e ficou conhecida por todos nós.